Keller Eastering

09.11.2018 Rio de Janeiro

Esta entrevista foi originalmente publicada no livro 8 Reações para o Depois (Ed. Riobooks, 2019).

 

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Keller Easterling (EUA) é arquiteta, escritora, e professora na Universidade Yale. Ela investiga a infraestrutura global como um meio de política e desenvolve o conceito de forma ativa na arquitetura, colocando ênfase no jogo de relações onde o objeto está inserido. É autora, entre outros livros, de Enduring Innocence: Global Architecture and Its Political Masquerades(2005), The Action is the Form (2012) and Extrastatecraft: The Power of Infrastructure Space (2014).

 

 

O que você entende por “reatividade” na arquitetura, e como você a estimula em sua prática e em suas aulas de projeto?

 

Keller Easterling - Em nosso trabalho de design, estamos tentando ensaiar com os alunos não apenas como fazer a forma do objeto, coisas com figuras e contornos, mas também como criar uma forma ativa. A forma ativa poderia ser um protocolo que se desenvolve ao longo do tempo, mas com frequência é um modo de organizar a interação entre potenciais de peças urbanas. Sempre penso que, na escola de Arquitetura, aprendemos a desenhar prédios e objetos que são obras-primas. Se fosse a escola de Teatro, seria como ter aulas de grandes solilóquios. Mas não temos a oportunidade de ensaiar a sua reatividade aos mercados e à política, como numa aula de improvisação. Esses órgãos diferentes do design, essas formas ativas e protocolos de interação, oferecem uma dimensão temporal que nos permite reagir e permanecer em jogo quando fomos superados por uma manobra política. É um modo de estender nosso poder além do objeto, para algo que pode ter mais capacidade de reagir a condições e a políticas em transformação.

 

Você pode explicar um pouco mais sobre essa dimensão temporal do design?

 

Keller Easterling - Se você olhasse para as pranchas expostas na parede durante uma banca de projetos, veria vários detalhes arquitetônicos, prédios, protocolos urbanos. Alguns desses protocolos urbanos podem estar organizados como linhas do tempo e cenários possíveis para a construção. Por exemplo, parte disso poderia ser uma interdependência entre os componentes, dizendo: “esta forma de investimento estará conectada com este tráfego”, ou “haverá uma interação entre o sistema de banda larga, as estradas, e a preservação das florestas”. Todas essas coisas fazem parte dos pesos e contrapesos da interação. Com frequência, como arquitetos, vamos para algum lugar, fazemos uma planta, lavamos as mãos e dizemos: “ok, concluímos um objeto perfeito”, que nunca é executado porque as pessoas por algum motivo nunca são puras o suficiente para reconhecer a “genialidade” do arquiteto. Em vez disso, como seria se pensássemos o projeto por meio de interdependências ou de reações em cadeia no urbanismo? De maneira realmente explícita, não no plano das vagas esperanças ou dos sonhos, mas de protocolos flexíveis superexplícitos que podem ser alterados quando necessário. Não apenas uma forma objeto, mas um protocolo de crescimento que reconheça que tudo tem consequências espaciais.

 

Qual a principal diferença entre a forma objeto e a forma ativa? Quando é possível fundi-las, ou seja, o que faz de um objeto uma forma ativa?

 

Keller Easterling - Como arquitetos, somos realmente bons em fazer formas objeto, e devemos ser. Aprendemos a projetar com geometria, figura, e contorno. Mas, sem abrir mão dessas ferramentas fundamentais, acho que nossos poderes seriam ampliados se conseguíssemos definir o sítio de outras maneiras. Com frequência, em palestras, mostro uma imagem de um subúrbio repetitivo ou de um campo infinito de arranha-céus. Essas organizações são feitas com multiplicadores, com interruptores, com detalhes, e com regras que são como fórmulas. Você pode projetar uma casa ou um novo arranha-céu, e tudo bem. É uma escolha artística perfeitamente razoável. Porém, para realmente ter impacto, seria muito mais poderoso se você projetasse outro multiplicador que funcionasse como um germe e usasse a paisagem para se tornar contagioso, para pegar carona nessa paisagem em multiplicação. Eu chamaria isso de uma forma ativa. É claro que se trataria também de uma forma objeto, uma forma objeto que foi posicionada como uma forma ativa. Pode ser um detalhe que se replica, uma relação com o transporte que diz: “Não precisamos mais de garagens em dezessete mil casas no subúrbio.” É algo que pode ter um efeito populacional, que pode transferir potenciais num campo de efeitos cumulativos.

 

Estaria a forma ativa relacionada à noção de agenciamento em arquitetura?

 

Keller Easterling - Sim. Somos formados para uma profissão que cobra uma taxa de serviço pelo relacionamento com os clientes, e isto está se tornando relativamente insustentável. Estou tentando dizer que nossos poderes, nosso pensamento correlativo, nosso conhecimento, poderiam ter mais autoridade nas decisões globais, na governança global. A cultura dá autoridade ao direito e à econometria, mas não dá muita autoridade à prática espacial, talvez porque tenhamos nos colocado nesse lugar do escritório que fica esperando um cliente nos dar o que fazer. Estou sugerindo que nossas habilidades deveriam ter outro tipo de autoridade e agência. Existem vários tipos de outras discussões sobre agenciamento, mas minha prática tem a ver com o entendimento de que, como designers, não podemos simplesmente desenhar um objeto. Precisamos também ser capazes de desenhar o modo como ele viaja pela cultura, precisamos projetar seu advento, sua introdução na cultura. E também desenhar sua história. Do contrário, nem adianta tentar. As pessoas que são politicamente poderosas sabem como operar essa tela dividida, elas produzem as mudanças junto com a sua própria interpretação. Por isso precisamos ter estômago para também sermos capazes de manipular a narrativa. É um pouco o que eu estava tentando discutir no último capítulo de Extrastatecraft, aqueles truques e técnicas políticas que acompanham a mudança — aquilo que na sinuca chamamos de “dar efeito na bola”.

 

Quais são as principais fricções e problemas sociais quando espaços de extrastatecraft [construções extra-Estados], como enclaves e zonas livres, encontram o território doméstico existente?

 

Keller Easterling - Essas zonas livres são lugares em que as leis domésticas do país anfitrião são eliminadas. Esse é o acordo especial. Você tem um conjunto próprio de leis, que com frequência elimina a necessidade de seguir as regulamentações trabalhistas ou ambientais do local. Há também a alfândega expressa, a mão de obra barata, etc. Se o seu país participa de um acordo global para proteger o meio ambiente, ou o trabalhador, todas essas regras são anuladas e postas de lado dentro da zona. E o que é mais complicado é que fica muito difícil para o país anfitrião negar a possibilidade de empregos que vêm daquela zona livre. Se o seu país tem 40% de desemprego, o Banco Mundial, o FMI [Fundo Monetário Internacional], e os consultores dizem: “Veja só, você precisa oferecer aquilo a que as corporações globais e os investimentos estrangeiros diretos estão acostumados a ganhar. Você precisa dar a mesma coisa que eles recebem em Singapura, a mesma coisa que eles ganham em todos esses outros enclaves.” É uma decisão superdelicada para os líderes do país anfitrião.

Uma das coisas pelas quais nutri esperanças é que, em vez de criar esses enclaves “extraurbanos”, os líderes desses países dissessem: “Certo, vamos fazer alguns acordos, mas vocês precisam estar localizados em cidades existentes, e o seu investimento estrangeiro estará amarrado, como outra inter-relação, a algo de que precisamos.” Dubai fez isso. Eles disseram: “Ok, se você quer investir em petróleo e gás no nosso país. Mas você vai precisar fazer um investimento que contrabalance isso, você precisará investir em algo de que precisamos: dessalinização, fazendas de peixes, produção de alumínio etc.” Acho que os líderes do país anfitrião poderiam barganhar melhor os seus ativos. “Tudo bem você querer acesso à nossa mão de obra barata, aos nossos milhões, bilhões de assinaturas de celulares, mas você precisa vir aqui e investir na nossa cidade, não pedir para que a ‘extraurbanizemos’.” Pode até ser mais barato, se você tiver que amarrar seu investimento a algo como mobilidade, você pode facilitar o transporte dos trabalhadores para a empresa. Sabemos, como urbanistas, que quando você coloca as coisas juntas num ambiente urbano, todo tipo de valor extra é criado, gerando proximidades, acrescentando diversidade, e daí por diante.

 

Um dos nossos estudos de caso é uma ocupação indígena no meio da cidade do Rio de Janeiro, onde tentaram criar um território autônomo comunitário que, na nossa perspectiva, é um enclave local. Qual poderia ser essa outra perspectiva do enclave, quando ele é criado para proteger uma minoria de um sistema predatório exterior?

 

Keller Easterling - Isso é muito interessante. Queria conhecer melhor o contexto exato. O enclave de que eu estava falando, modelado pela zona livre, é uma organização que só permite que informações compatíveis penetrem seus domínios. É o que chamei de organização que tem a disposição de um circuito fechado, que só conhece o que já sabe, que se recusa a aceitar qualquer informação externa. Uma das coisas que eu estava tentando mostrar em Extrastatecraft é essa ideia de enclave: formas de enclave, como a zona livre, que podem se estender, tomando territórios cada vez maiores, ainda que sejam limitadas em termos de informações. Elas podem ser uma fortaleza elástica que ironicamente atrai muita informação a fim de permanecer pobre em informações. A zona livre é projetada para proteger a liberdade do livre comércio, ainda que o livre comércio na zona livre seja um comércio manipulado. Não é livre comércio.

No enclave que você está descrevendo, é interessante virar o jogo e dizer que a liberdade dessa cultura indígena está sendo protegida, “suas regras”, estamos apenas seguindo as suas regras. É meio esperto e interessante pensar dessa maneira. Ao mesmo tempo, então, como fazer para que isso que você chamou de um enclave não seja pobre em informações? Como você poderia ter um enclave que não fosse um circuito fechado? Como esse enclave poderia ganhar força ao aceitar informações externas, ao tornar-se mais rico em informações, ao mesmo tempo em que valoriza e protege os direitos dos seus habitantes? Não sei como isso funciona, e, muito francamente, desconfio da própria palavra “liberdade”. Acho que é o modo errado de colocar as coisas, porque você sempre precisa perguntar: “liberdade de quem?”. É a liberdade de uma pessoa às custas da liberdade de outra pessoa? Espero que o enclave que você está descrevendo não promova a liberdade de um às custas da de outro. E penso que, com frequência, cria-se mais informação por meio da interação e do jogo com o seu outro.

 

Quais poderiam ser as estratégias para se beneficiar da infraestrutura dos enclaves — como condomínios exclusivos ou distritos corporativos —, ou, então, para subtraí-las e subvertê-las em prol de uma esfera urbana comum?

 

Keller Easterling - Um dos protocolos de subtração em que eu estava trabalhando pretendia ajudar a proteger assentamentos informais. Nesse protocolo, o critério de interação estava relacionado à propriedade. A posição da pessoa era protegida por estar numa dinâmica de interdependência com algo de fora, de forma que ela nunca fosse totalmente desvalorizada, que nunca perdesse sua posição nessa cultura. Sei de muitas pessoas que estão pensando nisso, e creio que há muitas maneiras diferentes de operar nesses casos. Alguns diriam que proteger as pessoas em certos assentamentos informais por meio de um título de propriedade seria a maneira mais rápida de fazer com que sejam compradas e marginalizadas. Então, venho pensando nas interdependências entre propriedades, propriedades que têm compartilhamentos entre si. Sei que isso soa improvável, mas pode ser um jeito simples de garantir que os habitantes sempre mantenham sua participação na cidade.

Também estou trabalhando num protocolo que visa a preservação de florestas diminuindo as estradas. Ele busca um modo de concentrar a construção a fim de proteger paisagens e culturas indígenas em risco em lugares como a Floresta Amazônica, onde estradas que destroem a floresta são tratadas como sinais de “progresso”. Assim, esse tipo de interação aumentaria a banda larga, diminuiria as estradas para preservar as florestas, e também atrairia instituições que têm fome de banda larga, como o turismo (desculpem, o ecoturismo é o clichê do momento) ou as universidades. Assim, criar uma relação entre essas coisas começaria a multiplicar os benefícios. E, surpreendentemente, não pensamos nem projetamos em termos relacionais, de interações. Essa é só uma ideia. Existem maneiras incontáveis, infinitas, de organizar uma interação.

 

Falando sobre a ideia de ativismo na arquitetura, quais são, na sua opinião, os hábitos que levam os arquitetos a “marchar na direção do inimigo inexistente e construir as barricadas erradas”, como você disse? Você pode falar mais sobre quais seriam as vantagens de trocar a “resistência” pelo “dissenso”?

 

Keller Easterling - Bem, as técnicas de que eu estava falando no final de Extrastatecraft eram formas de apoio à resistência. Marchamos nas ruas, sempre marcharemos. Sempre haverá um momento em que precisaremos dizer não. Resistir é importante, mas é também importante vencê-los em seu próprio jogo. O que eu buscava era expandir um repertório do ativismo, para que tenhamos muitas outras técnicas que possam amaciar o terreno para que nossa resistência tenha sucesso. As forças com que estamos lidando, seja Trump, seja Bolsonaro, são pessoas boas num certo tipo de artimanha. É útil ver como eles operam. Eles sabem muito bem como manipular as mentiras. Sabem bem que contar uma só mentira não funciona, mas que contar várias mentiras começa a funcionar extremamente bem. Se você contar só uma mentira, vai ser pego, mas muitas mentiras criam uma superfície escorregadia. Assim, apenas ser direto, apenas estar certo, apenas ser correto e ser justo, é fraco demais neste contexto. Tudo isso é muito fraco, simplesmente não funciona contra valentões, contra gurus totalitários, e daí por diante. É preciso ter um modo de se contrapor a eles. Sim, você pode ir para a barricada, mas você também tenta rastrear o que acontece sorrateiramente pelas suas costas. Acho que pessoas diferentes têm temperamentos diferentes. Eu sou melhor nessas coisas sorrateiras; então, é isso o que estou tentando oferecer para driblar essas pessoas que só querem vencer, e que vencerão a qualquer custo. Temos que descobrir maneiras de causar transtornos, de comer pelas beiradas, de criar nossos próprios disfarces, de desarmar a retórica dessas vozes autoritárias, de enganá-las. Não há escolha.

 

Qual o poder das ficções, dos rumores e das “contramascaradas” políticas enquanto ferramentas para a arquitetura? O que a arquitetura deveria aprender com a dramaturgia para expandir seu repertório de ativismo?

 

Keller Easterling - Minha primeira formação foi no teatro. No teatro, você tem as suas falas, mas o que você diz não é necessariamente o que você faz. A fala pode ser “eu te amo”, mas você está esfaqueando o seu marido. Ou está dizendo “eu te amo”, e o que você está representando é “eu quero que você vá embora”. Então, para os atores, é muito óbvio que a informação seja transmitida pela ação. Existe aquilo que você está dizendo e existe aquilo que você está fazendo. Sinto que, no fim das contas, é justamente isso o que estou tentando acrescentar ao repertório da arquitetura. Perceber a diferença entre fazer um objeto e os potenciais ativos desenvolvidos entre objetos. A química que é ativada entre objetos, aquilo que os objetos estão fazendo, não simplesmente o que eles dizem ou aparentam, mas como de fato atuam. Logo, perceber essa tela, dividida entre aquilo que os objetos estão dizendo e aquilo que estão fazendo, é para mim hoje uma capacidade crucial a ser desenvolvida pelos arquitetos. Você não apenas projeta o objeto e suas atividades, mas também projeta a maneira como ele percorre a cultura, por que ele se torna contagioso, e daí por diante.

 

Você posicionaria a arquitetura como uma espécie de máscara para uma narrativa?

 

Keller Easterling - Sim, talvez seja como uma máscara. E será que somos capazes de produzi-la? Com frequência somos polarizados pela retórica, mas não, efetivamente, pelo conteúdo da política. Há muita sobreposição entre o que as pessoas realmente querem. Entre políticas de esquerda ou direita, me parece fácil demais enganar as pessoas, o que talvez indique que precisamos ser um pouco impuros.