Rua Arquitetos

29.10.2010 Rio de Janeiro

Como foi a trajetória de vocês entre o período como estudantes de arquitetura até a formação do escritório?

 

Pedro Rivera - Fiz a faculdade de arquitetura na UFRJ e concluí o curso em 1997. Os anos em que fiz graduação foram um período bastante efervescente dentro da universidade, com um grupo grande de alunos muito atuantes. Era época em que havia os programas Favela-Bairro e Rio Cidade: com isso a cidade do Rio de Janeiro e seus espaços urbanos eram muito estudados e discutidos. Desde esse período dentro da faculdade, a nossa inserção no mercado de trabalho esteve atrelada ao momento da cidade, aos trabalhos para o poder público com ênfase no pensamento sobre o espaço urbano, podendo ter um viés mais próximo de revitalização ou de urbanização.

Sempre tive a intenção de ter um escritório e o primeiro passo, logo após o término do curso, foi a parceria com Washington Fajardo, Rafael Balbi e Rodrigo Azevedo. Alugamos uma pequena sala e começamos prestando serviços para escritórios maiores. No início, trabalhávamos separadamente, somente dividindo o mesmo espaço de trabalho, mas em pouco tempo tivemos a necessidade de trabalhar juntos devido às demandas do que fazíamos.

Em 1998, convidamos o Flávio Ferreira, que havia sido nosso orientador de Trabalho Final de Graduação, para fazer o concurso do Mercado do Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Era um projeto que envolvia restauro e adaptação de edificações emblemáticas e a reurbanização de uma feira com duas mil barracas. Foi um concurso nacional e nós o vencemos. Com isso, tivemos que nos mudar para Belém para desenvolver o projeto, vivenciar aquele lugar, negociando no dia a dia com a prefeitura, os feirantes e todos os agentes envolvidos naquele projeto. Foi uma experiência muito rica porque éramos recém-formados e tivemos que coordenar de lá, na “frente de batalha”, já que o Flávio Ferreira continuava a ter um papel muito importante nesse processo, mas tinha permanecido aqui no Rio. Éramos nós que tocávamos o cotidiano do projeto.

Com o término desse projeto, voltei para o Rio, mas a sociedade foi desfeita. Alguns anos depois, eu e Évora começamos a trabalhar juntos. O primeiro projeto que marcou esta parceria foi o Favelité, principalmente por não ter sido uma demanda, nós o inventamos.

O terceiro projeto que considero importante na minha trajetória foi a Galeria Progetti, no centro da cidade do Rio. Era um tema que eu já tinha trabalhado muitas vezes: a transformação de edificações históricos através de seu reaproveitamento e reuso. Com uma ênfase que não era de caráter historicista, mas pelo interesse na transformação da arquitetura existente. Foi um trabalho muito prazeroso, desenvolvido entre 2007 e 2008, com clientes ótimos, com um programa – galeria de arte – muito interessante e onde conseguimos desenvolver um trabalho bastante minucioso, desde a etapa de projeto até a execução.

 

Pedro Évora - Estudei na FAU-UFRJ e me formei em 2003. Trabalhei por cerca de dois anos na Diplodocus Arquitetos, do Israel Nunes e da Flavia de Faria, que eram meus professores. Mais para o final da faculdade, já tocava alguns projetos, obras, enquanto atendia a outros arquitetos. Me formei e passei a alugar uma sala no escritório do Pedro Rivera, fazíamos a maioria dos trabalhos separadamente, mas começamos a fazer algumas coisas cooperadas. Foi nesse período que surgiu a chance de fazer o projeto Favelité, o primeiro projeto desenvolvido entre a França e o Brasil cujo processo durou um ano e meio. Quando voltei para o Rio, em 2008, estudamos a possibilidade de nos associar e formamos o Rua Arquitetos.

É interessante, pois é um escritório no qual os dois sócios têm um perfil muito semelhante. Geralmente, se encontram sociedades em que as pessoas têm perfis muito distintos e se complementam. No nosso caso, a complementaridade se dá de outra maneira. Ambos projetam, ambos propõem. Estamos o tempo todo tentando equalizar essa energia. Talvez a força do escritório venha desse atrito, dessa fricção de ideias.

 

Vocês poderiam explicar mais detalhadamente o projeto Favelité?

 

Rivera - Em 2005, o Governo Federal promoveu o ano do Brasil na França, com a intenção de apresentar lá a diversidade cultural brasileira, com suas várias expressões. Essa premissa nos incentivou a fazer algo ligado à arquitetura, inclusive porque o Estado pouco reconhece a disciplina [arquitetura] como cultura, a não ser que esta seja patrimônio histórico. Assim, começamos a pensar o que seria relevante sobre arquitetura e a cidade naquele contexto. Se iríamos expor alguma coisa na França, o que seria importante apresentar? No Brasil, temos a arquitetura moderna notável, e o que veio depois? O que tínhamos naquele momento? O que havia de mais relevante era a favela. É um tema urbano. Um desafio premente em todas as cidades do país.

Com isso, literalmente, inventamos um projeto, submetemos à Lei Rouanet, buscamos apoiadores e financiamento, cumprimos toda a burocracia, pesquisamos e desenvolvemos uma exposição que ocupou uma estação monumental – Luxembourg – do RER, na França, durante três meses.

 

Évora - Nesse período, estávamos dividindo um escritório no Humaitá. O Pedro Rivera estava trabalhando com a Laura Taves em outro projeto e eu estava fazendo projetos meus. Mas tinha uma movimentação naquele espaço e, entre um trabalho e outro, debatíamos o ano do Brasil na França, o que poderíamos propor, o que poderíamos tentar a partir disso.

Nessa época, houve uma coincidência de fatos que ajudou o projeto. A Laura tinha tido contato com a artista plástica Françoise Schein, que havia feito um trabalho no metrô de Paris. Nesse período, eu estava ajudando nas aulas do Guilherme Lassance, na UFRJ, e fizemos uma viagem com a turma para Paris. Então, aproveitei essa minha ida para visitar algumas pessoas do metrô, em 2004, já para apresentar algumas ideias que tínhamos formulado aqui. Assim, começou uma conversa com os franceses, que continuou quando voltei, por e-mail, e o projeto foi tomando corpo. Houve uma série de contatos importantes que nos ajudaram a consolidar essa proposta, que foi submetida a uma seleção para a escolha dos projetos que seriam expostos naquela temporada cultural. Após essa escolha, continuou-se em um processo de viabilização e desenvolvimento que tomou mais sete meses até irmos pra a França para a montagem. A instalação foi visitada por milhares de pessoas.

 

Por que vocês adotaram o nome Rua para o escritório?

 

Évora - O espaço público é o que nos encanta e de onde surgem as ideias.

 

Rivera - Se você falar arquitetura, a primeira associação que você tende a fazer é com casa. Se pensarmos em cidade, essa associação é com rua. O que é cidade? Rua! É o que sintetiza a vida urbana.

 

Pedro Rivera, você está envolvido com o Studio-X. Você poderia explicar a iniciativa?

 

Rivera - Em 2009, tive contato com a Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, para dar uma palestra no Studio-X de Nova York. O Studio-X é uma rede global da escola de arquitetura de Columbia com espaços em Nova York, Pequim, Aman, Mumbai e, desde 2011, no Rio, onde sou diretor e curador. Como Mark Wigley – diretor da escola e idealizador do projeto – define, Studio-X é uma rede de espaços vazios – como um ateliê – com uma máquina de café expresso, ou seja, espaços completamente abertos para experimentação. A ideia é que esse lugar seja uma plataforma para se pensar as cidades, o futuro do ambiente construído, sendo aberto a diferentes disciplinas e com uma variedade grande de atividades, como palestras, debates, workshops, exposições, colóquios, lançamentos de livros. Cada Studio-X se conforma de acordo com as possibilidades de cada lugar, sendo orientado a partir do envolvimento das pessoas do local com aquele espaço.

Por mais de vanguarda que seja a escola de arquitetura da Universidade de Columbia, não existe lugar mais estabelecido e até, de certa maneira, inerte que a Academia. Academia é o lugar que concentra o saber, o que não é uma tarefa leve. A liberdade proporcionada no Studio-X faz dele um contraponto complementar à faculdade.

 

Évora - Em termos práticos, atende-se uma demanda do perfil dos alunos de Columbia, que é extremamente internacional. Um aluno chinês que faz o curso em Columbia tem demandas que vão além de Manhattan. Então, essa rede funciona para que a faculdade esteja pelo mundo.

 

Rivera - Um aspecto importante é o estabelecimento de trocas. A ideia do funcionamento do Studio-X não é a de centralização em torno da Universidade de Columbia, em Nova York, mas que também haja trocas diretas entre, por exemplo, Rio e Pequim em determinado tema que seja de interesse das duas cidades. O interessante é a possibilidade de estabelecer trocas de uma maneira global, criando acessos e pontes a outros lugares. Trocar conhecimento com todo o mundo.

 

Como vocês observam esse olhar estrangeiro sobre o Rio de Janeiro? Qual é o foco dessas pessoas quando elegem a cidade do Rio como tema?

 

Rivera - Primeiramente, existe uma curiosidade muito grande, pois o Brasil se apresenta de uma nova maneira no cenário internacional, como um jogador com certo protagonismo. Nesse momento, o país tem estofo para negociar numa escala global. Além disso, o Brasil sempre teve a imagem de um lugar exótico, com a Carmen Miranda, as favelas, a sensualidade, Copacabana, Brasília. Nosso país sempre produziu fenômenos muito singulares, fortes expressões próprias da nossa cultura. Existe uma mítica em torno do Brasil. A isto se somam a Copa do Mundo, as Olimpíadas, toda a crise mundial que pouco afetou o Brasil e outros fatos novos que estão surgindo e que ampliam esse interesse pelo nosso país.

Nessa nova configuração global, em que os Estados Unidos e a Europa não são mais o centro do mundo, o Brasil surge como a nova potência. China e Índia são muito diversos e incompreensíveis aos olhos ocidentais. De certa forma, é muito mais fácil acessar o Brasil do que ainda é acessar o Oriente.

 

Évora - Esse olhar estrangeiro existe há 500 anos. Tudo é troca.

 

Qual é a análise que vocês fazem da atual situação da arquitetura brasileira?

 

Rivera - Quando estávamos na faculdade, a arquitetura brasileira ia muito mal. Nos anos 90, além dos projetos de desenho urbano Rio Cidade e Favela-Bairro, não havia nada aqui no Rio de Janeiro. Aliás, desde o final da década de 1960, estivemos no ostracismo. As novas gerações, na qual me incluo ainda, começaram a questionar e buscar espaço, com uma ânsia muito grande para fazer coisas novas. Então, existe essa vontade de transformação, de proposição de novas abordagens, novas óticas e novos programas.

 

Évora - É uma geração que já faz algumas poucas coisas, mas que tem muita capacidade produtiva e que, agora, está encontrando meios para viabilizar suas realizações. É só observar as publicações, que vocês chegarão a esta constatação.

 

Rivera - Há três fatores muito importantes nesse fenômeno. O primeiro é a própria vontade dos arquitetos de projetar e trabalhar. Existe inteligência nos trópicos. O segundo fator é a globalização. A internet é algo do fim dos anos 1990. Lembro-me de já ter escritório e não ter e-mail. Há uma grande facilidade em acessar as informações, projetos, referências e questões levantadas em todos os cantos do mundo. Hoje, tornou-se muito fácil estar em dia com o que está sendo feito. E pensar que Lucio Costa foi buscar Le Corbusier na década de 1930 para que ele nos mostrasse o que era arquitetura moderna.

Por último, o fator que consolida tudo isso é o momento econômico, pois se constrói. Vai se construir muita coisa ruim, mas no meio disso teremos coisas boas, fato que é inevitável, é estatístico. Com o aparecimento desses bons projetos, as pessoas podem reconhecer o que é interessante e, assim, cria-se uma massa crítica. Acho que arquitetura brasileira tem um futuro brilhante nos próximos dez ou vinte anos, que é o tempo necessário para consolidar isso. Após esse período, estaremos em um lugar muito diferente de onde estamos agora, pois temos o potencial e, recentemente, ganhamos os meios.

 

Pedro Évora, você esteve no Haiti pouco após o terremoto que praticamente destruiu o país em 2010. Que experiências você trouxe desse país caribenho e quais são as capacidades do arquiteto numa situação emergencial como essa?

 

Évora - Fui para o Haiti com o intuito de fazer planejamento de campos e abrigos. Fizemos o possível durante o tempo que lá estive. Trouxe comigo uma tristeza muito grande pelo lugar, pelas condições e pela realização da possibilidade da falência total da infraestrutura de um país. Ou seja, ver como é uma cidade depois que todas as suas estruturas acabam – o que nos leva a pensar em como se pode projetar a partir do zero na atualidade. Como seria uma tabula rasa atual? Como podemos pensar uma cidade em termos de sustentabilidade, com tecnologia e rapidez de atuação? Como vários países podem atuar em um determinado lugar do mundo com compromisso, numa agenda global para fazer o lugar acontecer e dar certo, já que o Haiti está em um estado de penúria extrema. Isto é papel do arquiteto. Às vezes, esquecemos da nossa capacidade de atuação dentro desses termos-limite, de resposta em desenho a toda a infraestrutura de um país. Pensar na grande escala e também na barraca. É importante lembrar da nossa capacidade de articulação nesses termos.

 

Pedro Évora, você também esteve na China recentemente. Que lições trouxe do crescimento chinês para as transformações que ocorrem no Rio de Janeiro da atualidade?

 

Évora - Trouxe um alerta ao ver o que está acontecendo na China pela inobservância da cultura local, sobreposta por uma certa festa da arquitetura ocidental, sobretudo em Xangai e Hong Kong. A lição é a atenção que devemos ter para que esse interesse global no Rio de Janeiro não se transforme em um festival de arquiteturas quaisquer. É importante que nós, como geração, estejamos atentos para participar desse processo de transformações que ocorrem e ajudemos essas forças, esses agentes, nessa construção do nosso país, para que tenham um olhar mais local e mais cuidadoso em termos de tecnologia, cultura, uso de materiais.

Há uma insustentabilidade desses edifícios ocidentais na China. São anacrônicos, já nascem velhos. Vejamos os problemas recentes do sistema capitalista: crise financeira, o desemprego na Europa, a gigantesca crise ambiental, dentre tantos, e a China continua com uma construção desenfreada dessas arquiteturas que representam um modelo em ruínas espetaculares. São edifícios gigantescos e insustentáveis em termos de energia, constituídos por materiais que são transportados da Europa para lá, ou mesmo por madeira brasileira levada para a Ásia. Será que as pessoas não estão aprendendo nada com a crise que está aí? Qual é a sustentação dessa produção contemporânea? Uma constatação interessante é que os andaimes, essas estruturas provisórias para a construção desses edifícios, são ainda de bambu. Esses exoesqueletos de bambu, que envolvem torres de mármore e vidro em construção, são o que há de mais singelo e local dali. Por vezes, por entre os grandes edifícios, brotam também várias casas chinesas quase como parasitas. Essas imagens são exemplares do embate entre o que é de fora e o que está resistindo, como um templo entre dois arranha-céus ou um casulo de madeira saindo pelo centésimo andar. Trouxe isso comigo como alerta para o que acontecerá aqui nos próximos anos.

 

Neste atual momento de grande transformação urbana no Rio de Janeiro, como vocês imaginam que será a qualificação de espaços informais, como as favelas, e a conexão deles com a cidade legalizada e sua infraestrutura?

 

Évora - Parto do princípio de que a tecnologia pode ser transformadora. Com intervenções feitas de maneira inteligente, criar soluções construtivas para o habitar muito mais condizentes com as questões próprias à atualidade. Pré-fabricação, novos materiais, mobilidade... Considero que o grande desafio é a criação de parâmetros que vão além das qualidades existentes na cidade consolidada. Ou seja, o desafio está em produzir, na favela, ambientes construídos muito mais saudáveis e sustentáveis do que estamos vendo hoje na cidade como um todo. 

 

Rivera - Por meios tortos, a questão é que a favela é muito mais sustentável do que o restante da cidade atualmente. Como a Índia é muito mais sustentável do que o Canadá, porque a pobreza é muito mais sustentável – em termos ambientais – do que a riqueza. Nesta condição, se consome menos e se reaproveita mais. Porém, com a melhora da economia, um maior número de pessoas começa a consumir muito mais. Hoje, a melhora na qualidade de vida está atrelada ao aumento da capacidade de consumo e ao acesso à tecnologia, e isso traz consequências positivas e negativas. A favela entrar na cidade é a mesma coisa que a população da favela entrar no mercado: ter acesso à cidade e ter acesso à geladeira são partes de uma mesma lógica. É necessário ter cuidado em como essa transformação vai ocorrer. A cidade fica pior a cada recorde na produção e venda de automóveis.

 

Vocês utilizaram o termo algumas vezes; logo, como vocês definem sustentabilidade?

 

Rivera - A maneira como se vende sustentabilidade é uma falácia. Ter um edifício atestado pelo LEED que consome menos energia, com a aplicação de um material especial para construí-lo, não faz uma vírgula de diferença para o mundo. O que faz diferença para o planeta são as cidades. Buscar excelência numa vírgula é simplesmente criar um outro nicho de mercado. É muito mais eficiente planejar a cidade para que ela se espalhe menos do que fazer um prédio como esse. As questões mais prementes são urbanas.

 

Évora - A necessidade do planejamento volta a estar no centro das questões. O LEED não é uma solução caso não haja um plano. É o pensamento em grande escala que poderá fazer com que tudo fique mais eficiente.

 

Rivera - É óbvio que sustentabilidade é algo que devemos perseguir, ninguém discorda disso. Porém, sustentabilidade deve ser vista como uma maneira de agir com inteligência, perseguir eficiência e o bom uso dos recursos.

O problema é quando sustentabilidade é vista como um selo que aprova uma parte, mas que encobre os malefícios gerados pelo todo. Uma hipótese exemplar seria um plantador de soja no Mato Grosso que utilizasse um biodiesel de soja e, por isso, suas colhedeiras seriam sustentáveis. Por esse motivo, ele ganha um selo, uma imagem de que ele é “verde”. E o selo encobrirá a devastação contínua dos ecossistemas naturais através de uma monocultura. Infelizmente, na maioria dos casos, é assim.

Posso também usar alguns exemplos comuns entre os projetos de alunos de arquitetura. É uma moda colocar placa solar. Agora, placa solar é arquitetura? Não é! Jogar aquele negócio em cima do prédio e dizer que o projeto é sustentável por esse motivo é uma piada. Fala-se em ser sustentável e não se sabe realmente posicionar e orientar um edifício de acordo com noções simples de conforto ambiental, como insolação e fluxos de ventos, que são aspectos primordiais. Sustentável não é adjetivo. Sustentabilidade não é um fim. É uma pré-condição.

 

Évora - Sustentabilidade não pode ser vista como ilha. É uma noção muito mais ampla. É uma ideia de cidade possível. Mesmo que se inicie com ações parciais menores, sustentabilidade lida, invariavelmente, com o conjunto numa escala coletiva maior. Ou se discute nessa escala maior, ou é besteira.

 

Qual será o legado para a cidade do Rio de Janeiro dos grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas?

 

Évora - O que será construído nós não sabemos bem. Nem como será construído. Os arquitetos torcem, participam de concurso, militam, escrevem em jornal, ou seja, estamos mais presentes. Portanto, acho que o maior legado é geracional. Os alunos estão aqui debatendo a questão e nós, como profissionais jovens, estamos atuando. Quando este período passar, isso fica como uma energia que acumulamos, como uma capacidade de resposta aos nossos problemas, às nossas questões. E, assim, a arquitetura volta à cena. O maior legado para a cidade é que a arquitetura da cidade ganhe importância perante toda a população. A cidade em si, que estava muito esquecida nas últimas décadas, volta ao centro do debate.

 

Rivera - Concordo com o Évora, considero que o maior legado é uma outra postura. Claro que desejamos que as transformações urbanas sejam as melhores, as mais inteligentes, resolvendo problemas urbanos nas áreas de transporte, habitação, entre outras. Porém, sabemos que isso tem uma perspectiva muito limitada, visto que as Olimpíadas no Rio nasceram de um projeto meio atravessado. Dentro de nossos sonhos e nossas expectativas, serão possíveis algumas coisas, mas outras não.

O principal é a maneira como a cidade se enxerga. Até pouco tempo atrás, o Rio de Janeiro estava em um processo de afundamento, num grande pessimismo e falta de perspectiva, com as pessoas deixando a cidade. Houve uma inversão. Hoje, existe otimismo. Há uma crença em que as coisas possam se transformar, o que por si só incentiva as pessoas a se mexerem. Esse momento de virada em que vivemos não pode terminar com as Olimpíadas.

 

Évora - O legado não é composto somente pelos estádios como Cubo d’Água ou o Ninho de Pássaro, de Pequim. O legado não está nos objetos construídos. 

 

Rivera - Também não é o metrô ou o BRT. O legado principal é esse espaço subjetivo.

 

O que é arquitetura?

 

Évora - Arquitetura é o bom abrigo. Para isso, é preciso atender a todas essas questões que estamos conversando, a complexidade que há por trás do debate da cidade, num sentido de permanecermos vivos como grupo.

 

Rivera - Assim como a arquitetura não é uma ciência exata, não existe uma resposta exata. O que me interessa na arquitetura e a define é como o homem organiza o espaço – estabelecendo limites, grupos, afastamentos, junções – para que ele possa se complexificar enquanto sociedade.