Nitsche Arquitetos

22.04.2009 São Paulo

Vocês pertencem a uma família de artistas plásticos. Qual foi o grau de influência disso na escolha pela arquitetura?

 

Lua Nitsche - Recebemos uma educação com foco na liberdade de expressão. Na minha casa ou no ateliê da minha mãe, minha filha pode riscar na parede, no chão, em tudo. É essa liberdade para se expressar que reforça um lado de arquitetura.

 

Pedro Nitsche - A filha da Lua, de um ano e meio, fica pintando com guache, canetinha e sempre procurando um livro na estante. Percebemos que deve ter acontecido isso com a gente. Então, não acho que seja uma questão de talento, mas de influência direta.

 

Lua - Crescemos numa casa projetada pelo Paulo Mendes da Rocha, que nunca foi publicada. A casa é toda de vidro; tem muita transparência; a cozinha é junto com a sala; somente os quartos são fechados. Então da sala, você vê a cozinha, a rua, o que favorece o convívio com todo mundo. Nós víamos o que estava acontecendo na casa e isso influenciou o nosso modo de vida. Saindo dessa realidade, percebi que as pessoas vivem em casas compartimentadas, com hierarquia de espaços. Então, o que me levou a ser arquiteta foi a vontade de transmitir às pessoas que é possível viver de um jeito diferente se o espaço for diferente. A arquitetura não determina a maneira como você vive, mas tem uma influência grande.

 

Há incorporação da arte na arquitetura de vocês?  

 

Pedro - Sim. A arquitetura tem uma parte de arte, que nem a economia e nem a utilização explicam. Talvez, seja por isso que ela está um pouco deslocada em relação à engenharia e ao mercado. Às vezes, ela é lúdica, fantástica, imaginativa, ou algo que não tenha relação direta com o custo-beneficio. A parte da arte e de invenção que há na arquitetura é que pode até se deslocar do mundo atual regido pelo mercado.

 

Lua - A arte e a arquitetura estão ligadas. Minha mãe, Carmela Gross, tem feito trabalhos com uma arte maior, de instalações em prédios. Isso nos faz perceber que arquitetura e arte tem têm uma ligação grande para repensar a cidade, repensar o espaço.

 

Pedro - Se a arquitetura não cria poesia, não é arquitetura, é outra coisa. Assim como um texto só é poético quando tem arte. O diferencial é que a construção tenha poesia. Se tem poesia, tem arte, tem arquitetura.

 

Como se deu a transição da formação acadêmica para a atuação profissional?  

 

Lua - Eu e o Pedro tivemos trajetórias parecidas. Fiz um estágio durante a faculdade e depois trabalhei em três escritórios. Fazia parte da minha formação trabalhar em alguns escritórios interessantes escolhidos por mim. Trabalhei no Felipe Crescenti, depois no André Vainer e no Guilherme Paoliello, e, por último, no Isay Weinfeld. Foram experiências diferentes: o André Vainer e o Guilherme Paoliello são totalmente despojados, fazem arquitetura que não depende de detalhe. O Isay é o oposto: precisa até do detalhe da fechadura. Isso foi bom na formação. Nesses escritórios aprendi a lidar com os clientes; em outras palavras, como administrar um negócio. Agora, vejo que isso se aprende em dois ou três anos e não deve jamais ser o foco da universidade. Foi um período importante esse de transição entre a faculdade e ter um escritório próprio.

 

Pedro - Eu fiquei mais aflito. Quando saí da faculdade, queria fazer estágio em construtora, precisava construir. Hoje em dia, vejo que não precisa. Pode-se ir direto para um escritório de arquitetura, pois nele você aprende como acontece uma construção. Fiz estágio em construtora, no Ruy Ohtake e no Piratininga.

 

Vocês abriram escritório logo após terem feito estágios

 

Pedro - Durante e depois.

Lua - Formamos o escritório de fato entre 2003 e 2004. Antes, tínhamos uma salinha no ateliê da minha mãe, onde eu fazia projetos. O Pedro não trabalhava comigo frequentemente. Nós nos comunicávamos, mas ele trabalhava em outros lugares. Eu tinha ganhado o concurso da Faculdade de Medicina da USP, com o Marcelo Morettin e o Vinicius Andrade, então também ficava meio período com eles.

Pedro - Quando surgiam projetos, nós nos juntávamos. Assim fizemos os conjuntos comerciais na Faria Lima e a Casa da Barra do Sahy. Nesse momento, tivemos um ensaio de formação de escritório.

 

Lua - Em 2003, com uma reforma nesse ateliê, nós nos juntamos e contratamos uma pessoa para ajudar. Passamos a trabalhar todo dia no mesmo horário, então o escritório se formou naturalmente. Pegávamos projetos pequenos, até o momento em que sentimos que podíamos sobreviver fazendo projetos sem precisar trabalhar em outro escritório. Mas demora; é preciso ter muita fé. Tenho amigas que tinham fé, mas desistiram, porque há um período em que não tem trabalho. Depois que você desiste, não tem volta. Durante esse período meio latente em que você faz só um trabalho para alguém ou um concurso, o relógio está contando para seu escritório vir a funcionar alguma hora. Então, você tem que acreditar e ir em frente.

 

O que vocês fazem quando não tem trabalho?  

 

Lua - É preciso participar de concursos. Não pode fechar a porta e se retrair. Isso aprendi com o Vinicius Andrade, pois ele e o Marcelo Morettin sentam para fazer um concurso sem a menor expectativa de ganhar, só de curtir o trabalho. São trabalhos interessantes que nos ajudaram a concretizar as nossas ideias. Há escritórios jovens que não fazem nada, só terceirizam trabalho. Quando se pergunta: “O que você fez de arquitetura? Se você fosse fazer um prédio, o que faria?”, é um vazio, pois a pessoa nunca parou para pensar nesta pergunta. Então, quando não há trabalho, você tem que aproveitar para pensar a arquitetura, pois só o fato de estar produzindo algo, tendo ideias, gera uma energia.

 

Qual projeto vocês consideram ter dado visibilidade ao seu trabalho?

 

Lua - Foi a casa da Barra do Sahy. O cliente confiava na gente e disse: “Façam a casa, escolham os materiais, escolham tudo”. Nós fizemos sozinhos e foi aprovado. Ele não foi um cliente que pediu muita alteração. Foi um projeto que ficou meio puro.

 

De que maneira vocês apresentariam o escritório em termos de processo projetual e divisão de trabalho?

 

Pedro - A respeito do escritório, existem duas partes importantes. A primeira é a parte interna, o clima dele, a relação de quem trabalha no escritório. Gostamos de ouvir as opiniões de todos, tanto em processos criativos quanto na concepção. Quanto maior é a interação das pessoas, melhor. Tem o outro lado que é o do cliente. Ele é muito importante, precisa ser muito bem tratado e ouvido com atenção.

 

Lua - O Pedro e eu discutimos os projetos juntos durante a concepção e nos estudos preliminares. Nós fazemos todas as reuniões juntos, mas naturalmente ele cuida mais de alguns projetos e eu cuido mais de outros. Temos ainda mais um associado, João Nitsche (irmão mais novo) que fez artes plásticas e realiza um trabalho com imagens e fotos, e mais três funcionários: dois arquitetos e um estagiário francês. Há seis meses, nos mudamos aqui para a rua General Jardim. Então, o escritório é novo, com mais espaço, mais organizado, mais profissional.

 

O que significa o uso da cor na arquitetura para vocês? Isso é um diferencial?  

 

Lua - Acho que é influência das artes. Mas é uma brincadeira, para o projeto não ficar muito monótono. Na casa da Barra do Sahy tem cortinas coloridas. Sempre que tem cor envolvida, discutimos a questão com artistas plásticos. Acabamos escolhendo uma verde, uma vermelha e outra amarela.

 

Pedro - É uma questão de procurar por diversão também. Já que é tudo cinza, então vamos usar cores primárias. As fábricas de tinta têm aqueles catálogos que são incríveis, lúdicos. Uma vez, fizemos vários painéis para uma escola, usando o catálogo da FDE. Mas a coordenadora do projeto falou: “Assim não. Quero uma coisa colorida, porque é escola.” Falamos: “Então, vamos manter o catálogo inteiro de cores. O painel é um catálogo.” Só enquanto olhávamos o catálogo e procurávamos as cores, já mudávamos o pensamento.

 

Como ocorre a exploração do material no trabalho de vocês?

 

Pedro - A concepção vem junto com a escolha do material. Um dialoga com o outro. Então, a concepção se desenvolve até pedir certo material, que, por sua vez, pede uma modificação no conceito. Então, acho que o material e a concepção vão “trocando figurinhas” até ficarem ajustados perfeitamente. Para ter experimentação, é preciso conhecer o material. Para reforçar a concepção, é preciso pesquisar, experimentar, modelar, ver, regular. Quando começamos a entender o material, a concepção se fortalece.

 

Lua - Temos um lado prático que tende à simplificação. Nessas primeiras casas que fizemos na praia, tivemos que pensar num lado mais racional de construir. Não iríamos fazer a casa de alvenaria e concreto moldado in loco, porque a mão de obra era ruim. Além disso, tinha que fazer chegar uma betoneira. Tudo parecia inapropriado para o lugar. Então, resolvemos utilizar estrutura pré-moldada.

 

Pedro - O que a estrutura pré-moldada te informa? Que a modulação vai ajudá-lo a pensar o projeto também. Então, a maneira de operar com a estrutura pré-moldada indica que você deve modular aquele objeto arquitetônico.

 

Sustentabilidade é um termo em voga hoje. O que vocês pensam a respeito?

 

Pedro - A flexibilidade é um bom argumento para a sustentabilidade. Se um edifício tem um espaço flexível que pode ser ocupado de várias maneiras, isso garante que ele vá resistir muito tempo e poderá ser adaptado para vários usos. A demolição é muito ruim para a sustentabilidade. Também é importante o controle entre o uso de recursos e a geração de resíduos. É preciso otimizar os recursos. Por exemplo, a água tem que ser bem-utilizada e, para isso, a engenharia chegou a um nível bom de economia, porque a torneira abre e fecha; o arejador economiza 50%; a varanda brasileira protege a fachada do sol. São exemplos que mostram que a arquitetura e a engenharia já avançaram muito na questão de economia do recurso natural. O que se fala de sustentabilidade é reforçar o fato de que a construção vem avançando há muitos séculos.

 

Lua - A sustentabilidade deveria ser pensada no planejamento da cidade. Por exemplo, no Rio de Janeiro, a sustentabilidade é a questão dos morros [das favelas]. É um detalhe você ter que certificar um prédio, uma casa, um aparato. Devemos ver o problema do prédio em um segundo momento, porque nós temos outras questões a serem pensadas. São Paulo tem quilômetros de extensão, subocupação, favela e córrego poluído, que são questões bem mais importantes para a sustentabilidade do que a construção em si.

 

Como é construir em São Paulo hoje?

 

Lua - São Paulo é uma cidade espalhada, cheia de vazios, com terrenos mal aproveitados, áreas inteiras subutilizadas, galpão industrial vazio, um posto de gasolina. O Rio, por sua vez, é mais concentrado, mais adensado, tem uma urbanização mais bem resolvida. A cidade de São Paulo parece inacabada com esses terrenos subutilizados. Em termos de espaço construído, o centro da cidade é excelente, mas ele está subocupado. Aqui na rua em que trabalhamos, existem vários escritórios de arquitetura. A maioria dos arquitetos que está aqui pensa a arquitetura tendo como pano de fundo a cidade, que precisa ficar mais densa e mudar essa ocupação toda espalhada da periferia para tentar voltar para o centro. Apesar de São Paulo ter muito potencial para novas construções, é difícil ser contratado para construir aqui. Agora, conseguimos uma oportunidade com a Idea!Zarvos, que atende um mercado com uma visão diferente de arquitetura, de qualidade, e não esses empreendimentos imobiliários comuns. Essa iniciativa vem se destacando por convocar vários escritórios jovens e propor construções que são, em sua maioria, prédios residenciais com um conceito de prédio ideal, do tipo que nós faríamos se estivéssemos na faculdade. Ao invés de comprar cinco terrenos e oferecer tudo para o mesmo escritório, vários escritórios são chamados e, assim, fazem alguns empreendimentos interessantes. Tudo é vendido muito rápido! Acredita-se nos arquitetos para se fazer uma coisa única. É uma das primeiras oportunidades que temos de fazer projetos grandes em São Paulo. Construir na cidade é difícil. Gostaríamos de projetar prédios, parques, museus, estações, mercados, etc., no dia a dia, mas não aparece a oportunidade. As grandes empreendedoras não chegam até nós, talvez porque já têm um formato pronto, padronizado e lucrativo. Por isso, não pesquisam diferenciação de mercado. O foco deles não é arquitetura, mas vender metro quadrado. Talvez, também falte promover uma comunicação entre os arquitetos e os empreendedores.

 

De que forma vocês identificam que seus clientes chegam até o seu escritório?

 

Pedro - Fomos chamados pela Idea!ZARVOS por indicações. Isso foi fruto dessa coletividade, dessa comunicação entre os escritórios. Também acho que é um pouco pela exposição que nós já tivemos ao fazer concursos, em receber menções. De algum jeito, expor o nosso trabalho faz com que a pessoas antenadas que queiram contratar tenham perspectiva e acabem chegando até nós. O arquiteto tem que se expor. Ele tem que aparecer para receber oportunidades. Sobre a oportunidade, falta conhecer mais quem é esse empreendedor. Falta um pouco de relacionamento para você sair da faculdade e conseguir construir uma carreira, uma profissão ou um escritório, porque com o escritório você está empreendendo. A vida numa empresa é crescer e, para isso, é preciso ter os clientes, que você consegue através da comunicação.

 

Vocês poderiam fazer um panorama da arquitetura brasileira contemporânea?

 

Pedro - Cada vez mais acho que a arquitetura, apesar de ser um contrassenso, se globalizou. A arquitetura não deveria ser globalizada, pois cada país tem o seu clima, a sua cultura. É estranho falar em arquitetura global, mas, como a comunicação se difundiu pelo planeta inteiro, temos referências de arquitetos holandeses e eles, provavelmente, têm influências dos nossos arquitetos. Em São Paulo, esses prédios de pele de vidro são um absurdo. São uma atitude de importar o que vem de fora. Isso acontece desde o neoclássico e do eclético, quando São Paulo e Rio importavam a arquitetura da França ou da Inglaterra. Agora, em São Paulo, existem muitos lançamentos desses prédios neoclássicos. É uma moda, como se fosse uma roupa. Não há ideologia, uma raiz, um princípio; é uma vestimenta.

 

Lua - Em São Paulo, tem um lançamento imobiliário por semana, talvez por dia. Nada do que está sendo feito no mercado imobiliário é significativo ou representa o que os arquitetos pensam. Não existe uma produção forte de arquitetura pensada. É a arquitetura do mercado imobiliário. Então, há uma parcela enorme de construções sem nenhuma participação dos arquitetos, que projetam casinhas, objetos espalhados. Assim, não se consegue compor uma arquitetura brasileira expressiva. Não há oportunidade de pensar a cidade como houve em Brasília, muito por falta de organização política dos arquitetos, mas também por falta de vontade política dos governantes.

 

O que é arquitetura?

 

Pedro - Arquitetura é construir algo que mude a relação do homem com a natureza. Também não dá para conhecer arquitetura sem visitar os lugares. Isso é algo que aprendi com um professor da FAU: “Arquitetura não é visual, arquitetura é sensível”. Entrar no espaço é sentir o espaço na pele, não pelo olho.