Campo aud

08.10.2009 Rio de Janeiro

Como vocês analisam o curso de graduação que fizeram?

 

Gabriel Duarte - Primeiramente, há uma pequena diferença entre as nossas gerações.

 

Ricardo Kawamoto - Formei-me na FAU-UFRJ em 1997.

 

Renata Bertol - Enquanto o Gabriel e eu entramos em 1998.

 

Gabriel - Então, existe uma diferença de uns cinco anos. Sobre a graduação, a minha resposta e a da Renata serão muito similares, e a do Ricardo será um pouco diferente. O que há em comum é o fato de nós três termos estudado na mesma instituição, a UFRJ, num período histórico muito difícil da faculdade. Quando ingressamos nela, nos surpreendemos, pois não tínhamos noção de que a UFRJ como instituição atravessava uma fase tão ruim, e, especialmente, não sabíamos da situação na Faculdade de Arquitetura. Somente depois, conseguimos perceber criticamente o que estava acontecendo. A FAU-UFRJ é muito grande: 120 alunos ingressam por semestre e há um grande número de professores com qualidade e dedicação muito díspares. Logo no primeiro semestre, por sorte, conseguimos estabelecer uma concatenação de mestres e pessoas que são bons arquitetos e bons professores – como Pablo Benetti, Flavio Ferreira, Mauro Santos, Mauro Nogueira e Ivan Gil –, que lutavam contra o sucateamento da instituição. Por isso, posso afirmar que nós três e mais um grupo de amigos próximos somos um pouco self-made [pessoa que construiu seu sucesso]. O Ricardo teve experiências diferentes em disciplinas de projeto da faculdade, mas o que todas essas pessoas tinham em comum era o senso – o ideal – que criou uma geração consciente, crítica e com muito rigor dentro do ateliê. Aliás, abraçávamos essa questão do rigor, mesmo que às vezes um pouco excessivo, como um desafio, buscando exceder sempre e desenvolver os projetos da melhor maneira possível.

 

Ricardo - É uma geração de méritos individuais devido a essas dificuldades de equipamentos e professores. Havia uma concorrência grande, por parte dos alunos, pela busca dos melhores professores. Por um lado, havia turmas quase sem alunos, porque eram ministradas por professores notoriamente ridículos; por outro, existiam turmas que enchiam. Tinha uma concorrência interna muito grande dentro das turmas: quando alguém fazia um bom projeto, a turma toda fazia bons projetos. Essa geração, formada na UFRJ, permanece em contato intenso, talvez até mais do que na época em que estudávamos juntos. O diálogo entre os escritórios é positivo, até havendo projetos, de grande escala e com programas amplos, feitos em conjunto.

 

Como foi o encontro de vocês três e a formação do escritório?

 

Ricardo - Nós nos conhecemos no escritório Fábrica Arquitetura.

 

Gabriel - Como o Ricardo explicou, existiam grupos de estudantes com objetivos comuns que se formavam de forma natural e que gostavam de participar de concursos, pela frustração em muitas disciplinas deficientes da faculdade. Queríamos crescer, aprender, testar, desafiar e víamos nos concursos de projeto oportunidades fundamentais para isso.

 

Ricardo - Lembro-me de que, na época, a internet era extremamente precária e, para saber de qualquer concurso, em outros estados do Brasil ou no exterior, era algo difícil. Iniciou-se com um pequeno grupo que gostava de fazer concursos e isso foi aumentando, até que várias pessoas passaram a ter noção de que concurso é um bom começo de carreira.

 

Gabriel - Inicialmente, eu e Renata tínhamos um grupo que trabalhava intensamente. Fazíamos estágio, faculdade, bolsa de iniciação científica e concursos. Foi um período muito intenso de produção e aprendizado. Do nosso segundo ano até o último nem dormíamos direito, mas gostávamos. Entrei como estagiário da Fábrica Arquitetura – uma extensão do ateliê da faculdade – a convite do Pablo Benetti, que tinha sido o meu professor. O Ricardo, recém-formado na época, estava trabalhando no mesmo escritório. Fomos nos conhecendo, nos tornamos amigos, e começamos a perceber uma série de interesses comuns, tanto em arquitetura quanto em discussão e postura. Certo dia, resolvemos fazer um concurso juntos para a Nova Estação de Trens da Supervia, em São Cristóvão. Não tínhamos nem empresa, nem registro no CREA. Pedimos para uma amiga nossa, arquiteta, que tinha esse registro para se inscrever no concurso por nós. Inclusive, usamos o CNPJ do José Carlos Filizola, engenheiro que se tornou um grande amigo e companheiro em concursos e projetos. Assim, nos inscrevemos. Tivemos necessidade de envolver pessoas que tinham mais experiência em engenharia de transportes, em cálculo estrutural etc. Dessa forma, formou-se o embrião do que seria a metodologia de trabalho cooperativo que é a base do nosso trabalho até hoje. O encontro de todas as disciplinas necessárias se desenrolou de uma maneira muito rica e se solidificou em parcerias que duram até hoje. Para nossa surpresa, ganhamos uma menção honrosa. No dia da premiação, fui eu, a Renata e o Vitorio Benedetti – designer e também estudante na época –, sem nenhuma esperança e com intuito de ver os outros projetos dos arquitetos, mas, de repente, falaram o nosso nome. A situação foi engraçada porque eu e Renata – que estávamos no início do terceiro ano na faculdade – fomos premiados num concurso em que concorriam vários professores nossos da faculdade. Depois disso, fizemos vários outros concursos juntos, em que ganhamos e perdemos, fazendo com que nosso relacionamento se tornasse mais maduro. Com isso, percebemos que a atuação coletiva é mais forte do que a individual. Acrescentamos, nesta equação, a importância da multidisciplinaridade. Isso perdura até hoje como alicerce do nosso escritório.

 

Considerando o processo projetual e a divisão de trabalho, de que forma vocês apresentariam o CAMPO?

 

Gabriel - Percebemos que sozinhos nunca iríamos conseguir atingir os mesmos resultados em termos de qualidade e densidade de reflexão. Desenvolvemos uma metodologia de trabalho muito específica a nossa equipe: a partir da nossa experiência em diversos escritórios, percebemos que um sistema hierárquico e cristalizado de concepção e de tomada de decisões é, na verdade, muito prejudicial. Arquitetura é uma disciplina muito singular – em termos de método, de procedimento, do dia a dia –, que necessita de espaços que são próprios para ela, assim como exige uma estrutura diferente de uma empresa convencional. Percebemos que o modelo de estrutura hierárquica que passa sempre por uma única pessoa, por um só filtro, empobrecia o trabalho na nossa profissão. A questão autoral única do arquiteto nos incomodava muito. Atrás de um arquiteto principal tem centenas de outros profissionais que trabalham em conjunto, colaboram. Consideramos completamente inadequada essa mistificação da figura do arquiteto que dá soluções para tudo em instantes. É necessária muita reflexão e investigação.

 

Ricardo - O próprio nome do escritório reflete isso. Podíamos ter usado nossos sobrenomes para nomeá-lo, mas decidimos por um termo único que refletisse o que fazemos: um trabalho universal no campo de arquitetura, urbanismo e design. Então, CAMPO foi o nome mais simples, forte, fácil de ser lembrado e que reflete essa filosofia do escritório. Fazemos desde projetos pequenos até trabalhos com a escala urbana. E nós três temos funções e vocações que se complementam.

 

Gabriel - A questão do trabalho coletivo, horizontal e democrático é a nossa grande força como empresa, fábrica de ideias e fórum de debates. Isso é fruto da reflexão sobre o que acreditamos ser a nossa profissão. Nunca vimos a arquitetura exclusivamente como construção, nem nos frustramos tanto quanto outros arquitetos por termos poucos dos nossos projetos construídos, ou demorando excessivamente para serem terminados. O projeto de arquitetura é muito mais do que dizer qual é o aspecto construtivo ou formal de um objeto. Arquitetura é cultura. Arquitetura é pensamento. Então, a estrutura democrática e horizontal do escritório reflete-se não somente no espaço físico, mas também na postura de responsabilidades e em como a equipe trabalha. Acreditamos que o projeto é feito com base em consultas coletivas, questionadas e revisadas, propondo um objeto de trabalho de maneira muito mais sólida. Afinal, todos acreditam numa decisão tomada democraticamente. O fato de a equipe acreditar naquele projeto faz com que ganhe muito mais força, não só por uma questão básica de motivação, mas por todos entenderem o processo de maneira plena. Obviamente, mesmo quando falamos em estrutura democrática de trabalho, há responsabilidades diferenciadas que são norteadas de acordo com a experiência de cada um. Nunca iremos delegar certa responsabilidade para um estagiário ou um arquiteto até que ele tenha a experiência e a segurança necessárias para aquilo. Caso um estagiário não venha, faz falta. Se alguém não tomar para si suas responsabilidades, faz muita falta. Então, tentamos buscar essa simbiose de todas as partes, mediada pela responsabilidade profissional. Isso se reflete na estrutura física do escritório: é difícil saber qual é a mesa do sócio ou a do arquiteto ou a do estagiário. Tudo funciona no mesmo território de trabalho e pensamento. Isso permite que tenhamos uma rapidez muito maior ao projetar com uma estrutura relativamente pequena.

 

Gabriel - Acho que essa estrutura enxuta, que tem no máximo 12 pessoas trabalhando ao mesmo tempo, ajuda o escritório a se organizar melhor, em termos de arquivos, de documentos e até de processo de trabalho. O fato de se delegar certas funções a cada um é resultado de um plano de trabalho estruturado para isso. Caso contrário, haverá consequências como atrasos e o desconhecimento de o que o outro está fazendo. Se crescêssemos excessivamente, muito provavelmente perderíamos essa compatibilidade entre os vários integrantes da nossa equipe.

 

Renata - Às vezes, um de nós fica mais responsável por algum projeto, para organizar e coordenar. Mas todos estão envolvidos sempre, participando e dando suas opiniões.

 

Gabriel - Essa questão da colaboração transcende também as barreiras do escritório. Não consigo me lembrar de qualquer projeto em que o CAMPO atuou sem a colaboração com outros escritórios e com outros profissionais. Sentimo-nos desafiados e ficamos muito felizes quando temos reciprocidade dos nossos parceiros.

Gosto de trabalhar com a Renata e o Ricardo, porque pensamos de maneira diferente e a partir disso chegamos a algum lugar comum. Pelo fato de nos conhecermos há mais de dez anos, temos muita proximidade. Uma coisa que as pessoas até estranham – porque, além de sermos sócios, somos amigos e temos muita intimidade – é o fato de termos liberdade para falar que algo está horrível, rasgar papel na cara do outro, jogar maquetes fora e por aí vai. A nossa postura, de acreditar que a arquitetura transcende o projeto e o objeto, é um esforço nosso de transpor as barreiras do ateliê, do escritório, e transformar o CAMPO no que sempre quisemos que fosse: um verdadeiro fórum de discussão e de produção. O fato de ser professor e trabalhar com pesquisa enriquece enormemente. Não projetamos somente; também escrevemos, publicamos artigos, pensamos sobre o que fazemos e transformamos isso em ensaios. Aliás, nunca começamos um projeto desenhando. As primeiras reuniões nunca têm papel, para que criemos uma fundamentação conceitual forte. Buscamos compreender os problemas fundamentais do projeto em questão e nos afastar de alguma especificidade banal, detendo-nos em questões mais estruturantes.

 

Gabriel Duarte e Renata Bertol, vocês fizeram mestrado na Holanda e na Inglaterra, respectivamente. Como foram essas experiências? Vocês as aplicam de maneira crítica na realidade brasileira?

 

Gabriel - Um pouco antes de me formar na faculdade, eu e Ricardo abrimos um escritório. O protótipo do CAMPO nasceu em 2002, mas só se consolidou mesmo quando eu e Renata voltamos da Europa com mil ideias. O mestrado é, também, resultado da nossa insatisfação com boa parte do nosso ensino na graduação. Comecei a perceber que eram raras as exceções de grandes arquitetos que não tinham uma ligação, qualquer que fosse, com a academia, com o ensino. Via este tipo de perfil em meus próprios professores de projeto, como o Pablo Benetti, o Mauro Santos e o Flavio Ferreira. Perguntava-me se todo bom arquiteto também é professor. Isso gerou um desejo de entender o porquê da resposta desta questão ser sim, na maior parte dos casos. Apesar de o Ricardo e da Renata não darem aula propriamente dita, eles participam da academia como júri ou avaliadores externos ou coorientadores. Então, o mestrado é fruto desse duplo norte que segui na minha vida. Fui desenvolver meus conhecimentos de uma maneira mais completa num ambiente diferente do Brasil, para que pudesse realmente fazer o contraponto, voltar e aplicar isso. Assim, projetei uma vida meio ambígua em relação ao escritório e a faculdade, sabendo que meus sócios e meus amigos tinham anseios bem similares. A Holanda foi escolhida porque, nos anos 90, a arquitetura holandesa estava passando por um momento de efervescência incrível, o que me chamou muito a atenção. Naquela época, o país estava com crescimento e desenvolvimento econômicos muito acelerados, muita coisa acontecendo, e isso ficou claro quando fomos numa Bienal de São Paulo. Tinha um trecho desta Bienal sobre arquitetura holandesa, com três escritórios expondo – Mecanoo, Herman Hertzberger e uma retrospectiva do Aldo van Eyck, que era um arquiteto do Team X – e ficamos muito impressionados com aquilo: sociedade aberta, com muito dinheiro, que permite experimentação; fazendo-se muito mesmo que desse errado. Não foi à toa que, do mesmo grupo de amigos da faculdade, uma parte foi para a Holanda.

Sobre a Inglaterra, logo quando me formei, comecei a dar aula como assistente, na vaga de um professor da UFRJ. Naquela época, surgiu a oportunidade de organizar um workshop internacional com uma turma da AA (Architectural Association), de Londres. Mantive contato com alguns professores (Eva Castro e o Holger Kehne), que são amigos até hoje. Por pouco não fui para AA de Londres; acabei indo para a Holanda por circunstâncias da época. Depois, quem acabou indo para Londres foi a Renata. Esses anos na Europa mudaram muito nossa cabeça e moldaram a maneira como tocamos o escritório. Voltamos para o Brasil com uma metodologia de trabalho, uma ferramenta de integração das pessoas do escritório. A organização de um projeto é a mesma o tempo todo, todos sabem onde estão os arquivos do projeto. São coisas banais e cotidianas, mas que víamos muito pouco no Brasil.

 

Renata - Quando o Gabriel foi para a Holanda, fiquei aqui trabalhando em outros escritórios. Resolvi fazer o mestrado para sair dessa rotina de escritório, na qual se fica muito preso aos projetos executivos. Foi uma maneira de continuar estudando e continuar crescendo.

 

Vocês mantêm alguma relação com os professores e escritórios com os quais tiveram contato nesta vivência fora do país?

 

Gabriel - Um intercâmbio formal, constante e presente, não existe. Mas existe uma rede de amizades e cooperações que se mantém e que tende a crescer. Ao ir para fora e voltar para o Brasil, cria-se uma rede, que o pessoal de marketing chama de networking, em que mantemos contato com nossos amigos, professores e pessoas que estudaram conosco.

 

Renata - Há pouco tempo, escrevemos um artigo para uma revista da Turquia cujo editor é um ex-colega do Gabriel na Holanda.

 

Gabriel - Há uma comunicação, mas não um intercâmbio formal. Desde que terminei meus estudos na Holanda, por coincidência, acabei retornando para lá diversas vezes por motivos profissionais. Essa rede que se forma é muito presente, ainda mais agora com a internet. Por exemplo, Laura Alvarez, uma grande amiga espanhola que trabalhava comigo no SeARCH, em Amsterdã, tem um escritório próprio, atualmente, e projetamos juntos para alguns concursos internacionais. Ela até ganhou um concurso importantíssimo do novo prédio da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Delft.

 

 

Renata - Mantemos contato com algumas pessoas da própria AA, como o Jorge Fiori, para saber o que está acontecendo lá e para que eles também saibam o que estamos fazendo aqui.

 

Gabriel - Isso foi um tema de papo de bar da semana retrasada, um dos encontros mais recentes do pessoal da UFRJ. Foi após uma palestra do arquiteto americano Greg Pasquarelli, do Shop Architects, no Centro de Arquitetura aqui do Rio. Saímos com o próprio arquiteto e amigos como o Pedro Rivera, Pedro Évora, Fabiana Izaga e a Solange Carvalho. Conversamos muito sobre como o Brasil, hoje, se volta para seu umbigo, o que acaba nos limitando muito. Não conseguimos explicar o porquê disto ocorrer. Queremos reverter essa situação, queremos que venham Jean Nouvel, Christian de Portzamparc, Herzog e de Meuron e muitos outros. Queremos o intercâmbio, vendo e trabalhando juntos, porque isso é fundamental. Nenhum desses países – Inglaterra, Holanda etc. – cresceu olhando para o seu próprio umbigo. É necessário mudar, mais ainda com o Rio de Janeiro tendo sido eleito para as Olimpíadas de 2016. Acho que ganhei mais e-mails de parabéns, dos amigos gringos, por 2016 do que quando faço aniversário. Isso diz que está na hora de o Rio de Janeiro voltar a ter o seu lugar no debate internacional da arquitetura, perdido ao longo de quarenta anos. O que o Otavio Leonídio e o João Pedro Backheuser comentaram sobre o esvaziamento acadêmico do Rio de Janeiro pela geração moderna na entrevista ao ENTRE é correto.

 

Quais são as possíveis oportunidades para um escritório jovem, como o CAMPOaud, nesse cenário futuro de Olimpíadas no Rio de Janeiro, Copa do Mundo no Brasil e revitalização da Zona Portuária?

 

Gabriel - Ficamos muito emocionados no dia em que foi anunciada a Olimpíada no Rio, mas depois nos lembramos das mil propostas prontas de projetos para a cidade que ninguém sabe quem fez e de onde saíram. Entendemos que, como escritório individual, é quase impossível modificar a natureza desses processos. É algo que extrapola a profissão da arquitetura propriamente dita, passando por questões legais muito complexas, como lei de licitações, questões políticas, relações de poder etc. De maneira muito pragmática, obviamente desejando o melhor, achamos que, bem ou mal, alguma coisa vai acontecer! Caso não aconteça, podem apagar as luzes e fechar as portas, porque o Brasil estará amaldiçoado para sempre. Pessoalmente, aceito que seja uma arquitetura medíocre, desde que a cidade tenha benefícios com isso de uma maneira geral, havendo a construção de um legado forte. Mas, obviamente, me incomoda a mediocridade da arquitetura que está sendo apresentada. Demos uma olhada nos blogs de arquitetura de fora do país e todos ridicularizaram a apresentação do Brasil, entretanto, nada se falou sobre isso por aqui.

Acho que os escritórios pequenos e jovens da nossa geração não vão se beneficiar das propostas de planejamento envolvidas diretamente nos Jogos Olímpicos: grandes estações esportivas e conexões. No entanto, lutaremos pela chance de poder contribuir, pois esse é um evento de uma magnitude tão grande, que temos que nos articular para saber aproveitar a oportunidade. Talvez, através dos trabalhos – desdobramentos – que surgirão em paralelo a este evento.

O CAMPO tem dois anos e meio, e temos sido bem afortunados. Começamos com quatro pessoas, chegamos a ter 12 integrantes no auge de trabalho, e somos uma instituição economicamente viável. Estamos cansados de ver escritórios abrirem e fecharem com um ano de vida, e acreditamos que nosso sucesso seja sintomático da maneira como levamos os negócios. A verdade é que jovens arquitetos, para serem competitivos, só conseguem projetos fazendo melhor, dez vezes mais rápido e cobrando dez vezes menos, infelizmente. Quero um dia poder estar sentado na minha cadeira e não precisar correr atrás, com os clientes vindo até mim. Mas a realidade é muito dura e complicada. Visto isso, precisamos atuar nos desdobramentos da Olimpíada com um olhar crítico, não esperando uma benevolência do governo para fazer um concurso em que, eventualmente, possamos participar. Precisamos ser mais ativos, falar e reclamar.

 

Ricardo - Sobre o projeto das Olimpíadas, a discussão levantada pelo Sergio Magalhães, de levar a Vila Olímpica para a Zona Portuária, é correta. Existe um paralelo bastante nítido com Barcelona. Apesar de os projetos para as Olimpíadas e para a área do porto não terem sido compatibilizados, há um começo de discussão do espaço urbano. Contamos com projetos que são desdobramentos desses eventos. Não acho que vamos fazer um estádio, mas talvez uma urbanização do entorno; ou seja, projetos consequentes desse movimento. Haverá muito investimento residencial pelo mercado imobiliário, como hotéis. Teremos que chamar a atenção de quem vê de fora da cidade; logo não poderemos deixar o espaço urbano degradado. Também estão sendo planejados os grandes projetos viários, ligando os polos olímpicos da Barra e de Deodoro; o metrô Barra-Zona Sul; o trem-bala Rio–São Paulo. Na Copa do Mundo, o fato de São Paulo e Rio estarem conectados (pelo trem-bala), gerará nas duas cidades um grande movimento financeiro.

 

Vocês poderiam fazer um balanço da produção atual da arquitetura nacional?

 

Gabriel - O Rio de Janeiro ainda tem uma produção muito pobre em termos arquitetônicos. Não falo disso reclamando, pois nos incluímos nesse grupo também. O sistema de contratação, no Rio, valoriza muito pouco a questão do desafio, da qualidade, da inovação. Há, também, uma desconfiança generalizada com os jovens profissionais. As parcerias que fizemos com escritórios maiores foram o nosso primeiro passo. Assim, conseguimos acumular uma documentação para ser usada em licitações. Mas isso é uma questão específica nossa, pois tivemos a sorte de juntar um acervo de projetos no portfólio que nos capacitam a entrar em concorrências. Imaginem como se começa a carreira em um escritório pequeno que não tenha contatos. Não é possível participar de licitações que exigem, como precondição, que o coordenador da equipe tenha 15 anos de formado e tenha um projeto igual ao que está sendo feito no seu acervo técnico. Depois, percebemos que só uns cinco escritórios no Brasil têm esse perfil. Daremos um salto fundamental quando houver uma mudança de postura nisso; quando o mercado priorizar a qualidade em detrimento de atributos quantitativos e financeiros. Um projeto não sai mais caro porque um arquiteto pensou mais nele, muito pelo contrário. Não será, necessariamente, mais caro por ser melhor.

 

Ricardo - No Rio, não há uma discussão arquitetônica ampla pela sociedade. Com estes futuros eventos, a cidade torna-se o grande portão do país. Assim, é necessária uma postura crítica para mudar a situação atual de falta de qualidade arquitetônica.

 

Gabriel - Todos concordam que São Paulo tem uma produção superior muito admirada, mas ficar repetindo isso não faz sentido. Preferimos ver isso como um desafio: quando conseguiremos nos igualar ao status deles em matéria de produção e qualidade? Não é inveja! Queremos ter também um ambiente de discussão rico. E não é só em São Paulo que há esse ambiente; em Minas Gerais, tem um pessoal jovem muito bom, como o Alexandre Brasil e o Fernando Maculano. O Rio Grande do Sul tem o Studio Paralelo e tantos outros. Mas precisamos admitir que quase não há comunicação entre as regiões. As gerações mais antigas que me desculpem, mas o movimento de mudança parte das cabeças jovens, como a Oficina de Arquitetos, a BLAC, a DDG, o Pedro Rivera e muitos outros no Rio.

 

Qual é a importância da imagem para representação da arquitetura?

 

Gabriel - É necessário fazer uma distinção muito clara entre o desenvolvimento de uma metodologia visual para pensar e projetar, e a representação posterior de um projeto, que consideramos dever ser rica, sendo capaz de construir um cenário de ambientação. Somos muito rígidos e criteriosos com a maneira como a imagem do projeto é colocada para fora, com o que ela representa, para que não seja esvaziada de significado. Isto vai desde um diagrama de projeto até uma imagem banal na qual um roteiro de representação do objeto é construído. Costumamos brincar que gastamos mais tempo colocando figuras humanas nas perspectivas do que fazendo as perspectivas em si, porque aquilo cria um cenário com vitalidade. Temos raiva dessas fotos de projeto que não têm pessoas. Arquitetura foi feita para ser usada, para ter personalidade, para ser suja. Prezamos por uma qualidade gráfica tremenda, até no desenho técnico burocrático; a prancha tem que estar bem-organizada, pois é a maneira como falamos e expomos nossa produção. O modo como nossos projetos respondem e se adaptam à cidade é reflexo do nosso processo de pensar visualmente. Um projeto nasce da conceituação, mas logo o discurso e a ideia de objeto se fundem no desenho; assim, a representação deve ser carregada intensamente de questões conceituais de operação e reflexão. O croqui, o desenho, o diagrama ajudam a desenvolver e ordenar as ideias, sendo tanto parte do processo quanto a discussão. Não é feita, simplesmente, uma foto final! Para chegar a ela, foram feitas outras trezentas.

 

O que é arquitetura?

 

Gabriel - Enxergamos a nossa profissão como uma questão de transformação do território, entendendo o edifício, a cidade e a paisagem de maneira mais global. Qualquer objeto é inserido numa trama de relações complexas – sociais, culturais, econômicas, políticas – e, por isso, acreditamos que a arquitetura transcende os limites do objeto construído. Discordamos de quem fala que arquitetura só é arquitetura quando é construída. Fazer arquitetura é pensar a cidade e aquilo que a compõe. Então, acho que, como profissão, o sentido da palavra “arquitetura”, às vezes, é um pouco limitador. Arquitetura engloba projeto, mas não é só isso. É como dizer que o bolo de chocolate é só o ovo, ou somente calda de chocolate, ou só farinha, ou só açúcar, sendo que, na verdade, o bolo é o resultado da relação entre estes ingredientes.

 

Renata - Arquitetura não é somente uma disciplina, mas engloba várias coisas ao mesmo tempo. A prioridade é pensar o espaço, mas, ao pensá-lo, deve-se considerar como vamos influenciar na vida das pessoas, na economia, na política da cidade. Pensar nos mil desdobramentos gerados que não são isolados.

 

Ricardo - Acrescento que a arquitetura é temporal, entendendo que um objeto arquitetônico que é para o dia é diferente de outro que é para a noite. Por exemplo, um prédio comercial que tem vida de dia e é um grande vazio à noite. São considerações a serem levantadas. Entender seu comportamento não somente durante os dias, mas durante os anos, observando como o tempo agrega valor. Ou seja, pensa-se em qualidade de projeto quando se entende que uma imagem poderá durar vinte, trinta, quarenta ou mesmo mil anos, como os palácios europeus.